Democracia e Corrupção

Publicado por Roberto Freire | Categoria(s): Brasil | Em: 14-05-2010

A conquista da democracia no país, fruto de uma longa luta da cidadania contra a ditadura militar instalada em 1964, sacramentada pela Constituição de 1988, possibilitou, entre outras coisas, a centralidade da sociedade civil como meio decisivo de ampliação e aprofundamento do próprio processo democrático, em função da capacidade desta de pressionar o governo, em seus diversos níveis, por mais eficiência, transparência, e responsabilização de seus mandatários na gestão da res publica. No entanto, temos assistido ao longo desse período, com crescente preocupação, à instalação de um sistema de corrupção que vem drenando bilhões de reais dos cofres públicos, como revelam ininterruptas operações da Polícia Federal, do Ministério Público e dos Tribunais de Contas, principalmente o TCU.

 Esse sistema criminoso de desvio de recursos públicos em todas as instâncias do governo compromete todos os serviços que são dever do Estado e direito do cidadão. Daí nossa precaríssima educação pública, nosso arruinado sistema de saúde, os inacreditáveis índices de violência e insegurança pública, além da depauperada infraestrutura que pesa sobre todos nós, impondo sofrimento, notadamente às populações de regiões mais afastadas do Centro-Sul do país, e bloqueando nosso desenvolvimento econômico ao castigar o setor produtivo e elevar o chamado custo Brasil.

Além disso, a corrupção, como método, já pode ser percebida também em todos os poderes constituídos, como inquéritos policiais têm demonstrado, ameaçando a própria democracia como sistema de governo.

Lembro aqui o ocorrido na Itália nos anos 90, na sequência do escândalo do Banco Ambrosiano, em 1982, que implicava a máfia, o Banco Vaticano e a loja maçônica P2, quanto se desencadeou a Operação Mãos Limpas, investigação judicial de grande envergadura visando esclarecer casos de corrupção envolvendo agentes do estado.

Foi a partir da ação do judiciário italiano, durante a Operação Mãos Limpas, que se conseguiu quase 3 mil mandados de prisão; mais de 6 mil pessoas estavam sob investigação, incluindo os 872 empresários, 1.978 administradores locais e 438 parlamentares, dos quais quatro haviam sido primeiros-ministros. Esta ação fulminante e decidida permitiu que a democracia na Itália se fortalecesse no combate à corrupção que se entranhara no aparelho de Estado, envolvendo grandes empresários, políticos de renome nacional e muitos servidores públicos, com a prisão dos culpados – apesar de hoje a administração Berlusconi representar um retrocesso a todo aquele avanço conquistado.

Estamos assistindo no país, atualmente, o mesmo silencioso processo de apropriação da máquina pública pela lógica da corrupção, como um sistema que organiza o próprio processo político-eleitoral. Cada vez mais partidos e políticos são investigados e denunciados, agentes do Estado flagrados em ilegalidades, concorrências viciadas e obras superfaturadas, como tem denunciado o MP e o TCU. O dinheiro se destina a enriquecimento ilícito e/ou irriga campanhas políticas. Não estaria na hora de nossa Operação Mãos Limpas?

*Na versão eletrônica do jornal Brasil Econômico não consta este texto. Porém, este ‘Democracia e Corrupção’ é o correto.

Comentários

Temos (1) comentários para Democracia e Corrupção

  1. Caríssimo Senador
    Tenho 73 anos, sou seu fã incondicional desde os tempos que vivi em Recife (1965 a 1970)e sou orgulhosos por ter um filho Pernambucano(sou paulista paulistano).
    Definitivamente o momento é propício para encararmos uma Operação Mãos Limpas.
    Proponho iniciarmos um movimento de caracter nacional.
    Rudolf

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