Um homem singular

Publicado por Roberto Freire | Categoria(s): Brasil, Cultura | Em: 11-06-2010

Instituído pelos governos do Brasil e de Portugal em 1988, o Prêmio Camões é atribuído aos autores que tenham contribuído para o enriquecimento do patrimônio literário e cultural da língua portuguesa.

Considerado o mais importante prêmio literário destinado a um autor de língua portuguesa pelo conjunto da sua obra, foi este ano entregue ao poeta Ferreira Gullar.

Nascido José Ribamar Ferreira, em 10 de setembro de 1930, em São Luís, Maranhão, Ferreira Gullar inscreve seu nome na arte literária em 1950, quando vence um concurso no Jornal de Letras com o poema O galo.

Mesmo ano em que é demitido de seu trabalho de locutor de uma rádio por se recusar a ler uma nota oficial do governo que acusava os comunistas pela morte de um operário, em um comício.

Desde cedo, arte e política entrelaçaram-se em sua vida de uma maneira inequívoca e apaixonada, como demonstra sua vocação para a polêmica e a experimentação da fase concreta, dos anos 50, e o caráter popular de suas peças e trabalhos no Centro Popular de Cultura da UNE, nos anos 60.

Homem de letras e animal político, Gullar notabilizou-se por seu empenho, na época do CPC e no Jornal do Brasil, na discussão crítica de nossa cultura e por seu envolvimento nos movimentos artísticos mais salientes que se materializavam no Brasil, à época.

Poeta refinado, crítico de arte conceituado e artista plástico tenaz é também um cidadão voltado para as questões políticas de seu tempo. Por isso, entregou-se, sem pestanejar, à causa da democracia, quando esta foi violentada pela ditadura militar, em 1964.

Assumiu a militância política no PCB e correu todos os riscos decorrentes dessa opção.

Preso após a edição do AI-5, exilou-se, em 1971, na URSS, depois em Santiago do Chile, no Peru e em Buenos Aires.

Na Argentina, produziu um dos poemas mais relevantes de nossa língua, o Poema Sujo. Misto de memórias e reflexão poético-política, o poema teve um forte impacto no mundo literário.

Desde seu retorno ao país, em 1977, tornou-se referência na luta pela democracia e um de nossos mais produtivos intelectuais.

Comprometido com a luta de seu povo pela conquista da dignidade e por uma vida solidária, dedicou o melhor de suas energias a tal propósito.

O Prêmio Camões que Gullar recebe pela excelência de sua produção literária e artística enche-me de orgulho pessoalmente e como brasileiro.

Sempre junto com o poeta e intelectual, caminhou o político, que, cabe destacar, tornou-se inigualável testemunho de vida.

Numa época em que nossa intelligentsia recolhe-se numa omissão inexplicável, quando não ao cinismo dos áulicos, ele continua na trincheira de combate ao coro dos contentes, desmistificando o uso do poder em benefício de estruturas partidárias; denunciando o populismo caboclo dos salvadores da pátria; confrontando o silêncio dos acomodados com seus eloqüentes “resmungos”; levando avante a tarefa de todo intelectual digno de ser o porta voz do civismo de seu povo.

O significado da obra do poeta Gullar mescla-se à dignidade do cidadão, tornando-o uma singularidade provocadora para nossa consciência democrática.

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