Silêncio ensurdecedor

Publicado por Assessoria de Imprensa | Categoria(s): Brasil, política | Em: 22-11-2010

Publicado no Brasil Econômico em 22/nov/2010

Em 2010 comemoramos os 25 anos do fim da ditadura militar. Sintomático e relevante é o silêncio abissal do PMDB e o total alheamento do PT, talvez o partido que mais se beneficiou com a redemocratização.

É compreensível a não-comemoração de tão importante fato na vida política do país por parte do PT, que se recusou a fazer parte da aliança democrática que elegeu Tancredo Neves em 1985, depois de derrotada a emenda das Diretas Já – e ai da democracia brasileira se dependesse do PT: a ditadura teria se reproduzido com a escolha de Paulo Maluf no Colégio Eleitoral. Já o silêncio do PMDB e de outras forcas democráticas nos parece constrangedor.

O MDB, antecessor do PMDB, fundado pelo Ato Institucional 2 (juntamente com a Arena), em 1965, nucleou desde o início uma oposição derrotada remanescente dos diversos partidos que haviam sido extintos pelo regime militar.

Um momento marcante aconteceu em 1974, quando o MDB obteve uma vitória histórica na eleição para o Senado, derrotando a Arena em 17 dos então 21 estados da Federação. Com licença do leitor para o grifo, “consolidava-se ali a via democrática como a única forma de luta capaz de derrotar a ditadura”.

Cabe destacar, sobretudo para a nova geração, o papel que o Partido Comunista Brasileiro (PCB) desempenhou na redemocratização do País. Foi o Partidão o setor da esquerda que, junto e sob a liderança dos democratas, construiu a mais ampla frente de forças políticas e sociais de resistência ao regime militar.

O PCB recusava o voluntarismo e o aventureirismo da opção pela luta armada: além de equivocadas, as teorias militaristas dos focos, as guerrilhas urbanas e rurais, os seqüestros e atentados, serviram para articular as forças da repressão e os ultrarradicais do regime militar. O PCB entendia que uma frente democrática era o instrumento efetivo para o isolamento e derrota da ditadura.

De todo modo, nós, que viemos daquelas forças políticas que forjaram o velho MDB, temos, não apenas que festejar, mas nos sentirmos responsáveis pela saída democrática que o país conheceu com a eleição de Tancredo Neves (sim, o vice era José Sarney!).

E o PT com isso? Aí é que está. Alguns anos antes do Colégio Eleitoral, precisamente após a anistia (a primeira) de setembro de 1979, o regime havia, por meio de uma reforma política da lavra do general Golbery do Couto e Silva, dividido a oposição e permitido a legalização e criação de partidos democráticos, dentre eles, no campo da esquerda, o PDT (legenda que resultava do golpe judiciário contra o PTB de Brizola) e o PT (articulação de movimentos da Igreja Católica com expressivas lideranças sindicais e egressos da luta armada).

Não por acaso, o regime não permitia a livre organização partidária, o PCB continuava perseguido. A liberdade partidária plena só se concretizaria após a eleição de Tancredo, quando o governo removeu entulhos autoritários, acabou com a censura, restaurou a liberdade de imprensa e convocou a Assembleia Nacional Constituinte.

Não é motivo bastante para comemorações?

Roberto Freire é presidente do PPS

Comentários

Temos (4) comentários para Silêncio ensurdecedor

  1. O PT jamais ira comemorar a redemocratizacao no Brasil . Se olharmos com olhos de quem quer ver , podemos ver os retrocessos com a exclusao da sociedade na participacao de movimentos que antes , qdo ainda viviamos na ditadura , existiam . O povo se mobilizava mais , tentavam fazer valer os direitos dos cidadaos , lutavamos por causas que hoje , me parecem banais para alguns .
    O povo baixa a cabeca e os politicos sem escrupulos , maioria do PT , tira proveito da situacao . A eleicao da dilma/lula foi 1 crime contra a Constituicao . Todos nos sabemos que e o lula no terceiro mandato , cinicamente desafiando as leis do Brasil .
    O que desanima muito nao sao os politicos de 1 maneira geral . O que desanima e o comportamento da sociedade , das pessoas maduras , dos jovens , da classe media no todo , que arca com o pesado onus de pagar as contas da ma administracao do atual governo .

  2. Freire, com muita lucidez, bem condensado e muito bem escrito, como sempre faz. Seria um grande orgulho para todos brasileiros, tê-lo como presidente.

  3. Sr. Roberto Freire
    É inacreditável para mim aos 66 anos que acompanhei os movimentos dos comunistas e militares, tendo uma vida normal durante o período de exceção. Acreditar que depois de “tudo” que fizeram para tornar o Brasil um país comunista, a turma do PT esteja de volta ao poder e irão, por certo, fazer disso aqui uma Venezuela (pelo menos)! O comunismo deles é esse, que enriquece os “manda chuvas” e o povo rala! É bem feito que a classe média agora pague mais impostos. Merecem isso para tapar as crateras do desgorno Lulla. Votei no seu nome nestas eleições, admiro sua oposição ao que está aí visto que o PSDB parece o partido mais anestesiado. Já deveriam estar fazendo oposição. Preparando o impitchiman da DILMA, lembrem-se eleitores dela…no primeiro dia 03 creches… e mais 03 a cada dia, para alcançar o volume mentiroso que ela prometeu. Que pesadelo!!

  4. Caro homônimo,

    Quero parabenizá-lo pela excelente matéria acerca da história da resistência dos brasileiros à ditadura militar embora discorde, em alguns pontos, sobre suas investidas contra o PT. Continue escrevendo. Você é uma das poucas “cabeças pensantes” do Congresso Nacional!

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