Cultura

Saramago deu lição de humanismo para a esquerda ao condenar repressão em Cuba, diz Freire

Publicado porRoberto Freire | categoria(s): Cultura | em: 20-06-2010

Para o presidente do PPS, posicionamento do escritor, que morreu nesta sexta-feira, revelou algo que está faltando a setores da esquerda de hoje, que se unem a ditaduras e abstêm-se de condenar desrespeito aos direitos humanos

O presidente nacional do PPS, Roberto Freire, afirmou nesta sexta-feira que o escritor português e prêmio Nobel de Literatura José Samarago deu uma grande lição de humanismo para a esquerda ao condenar a repressão política em Cuba. Comunista fervoroso e amigo pessoal do presidente de Cuba, Fidel Castro, o intelectual, que morreu nesta sexta-feira, não se absteve de criticar as restrições à liberdade e, em 2003, quando três dissidentes do regime cubano foram fuzilados, condenou a ação. “Cuba não ganhou nenhuma batalha heróica com o fuzilamento desses três homens, mas sim perdeu minha confiança, destruiu minhas esperanças e decepcionou minhas ilusões”, disse o escritor na época.

Com essa postura, ressalta Freire, Saramago “revelou algo que está faltando a setores da esquerda de hoje, que se unem a ditaduras e abstêm-se de condenar o desrespeito aos direitos humanos”. Recentemente o PT e o presidente Lula foram alvos de duras críticas por ignorarem o desrespeito aos direitos humanos em Cuba e no Irã. “Samarago teve a coragem. Hoje, em várias situações que a esquerda humanista precisa se pronunciar, muitos intelectuais se calam, não se preocupam com a questão democrática e com os direitos humanos”, reforçou o presidente do PPS.

Freire lembra que Saramago era um comunista ortodoxo, humanista e libertário. “Em todas as mudanças que ocorreram no mundo (com a chamada queda do socialismo real) ele se fechou muito em torno do Partido Comunista Português. Mas teve um determinado momento que ele foi um dos primeiros, entre os grandes intelectuais do mundo, que se pronunciou contra a repressão cubana. Num determinado momento, ele foi um dos primeiros a dizer ‘agora chega’, Cuba não pode contuinuar dessa maneira, com represssão, atentados aos direitos humanos. E não deixou de ser comunista não”, ressaltou Freire.

Para Freire, Saramago permanece imortal pela sua obra e pelo seu posicionamento político. “Morreu José Saramago, mas com certeza ele é imortal com os livros que vão continuar a nos encantar”, afirmou Freire, ao lembra que “Levantado do Chão” (de 1980) foi o primeiro título que leu do autor. “Me causou um impacto grande porque eu me lembro bem que era um livro que não tinha quase pontuação. Era direto. Me causou uma impressão muito forte”.

Em 2004, em entrevista ao jornalista Geneton Moraes Neto (leia a íntegra aqui), Saramago deixou algumas impressões sobre o Brasil e o Comunismo e a Literatura. Leia trechos:

O senhor já disse que o Brasil é um país de luzes e sombras.Aos olhos do mais famoso escritor português de hoje, qual é a grande luz e qual é a grande sombra que o Brasil projeta ?

Saramago : “Uma pergunta dessas não é fácil de responder.Países de luzes e sombras de uma maneira ou de outra todos o são.O que digo em relação ao Brasil é que o país poderia ser,por suas riquezas naturais e pelas características do seu povo, um país em que as luzes predominassem.Não digo que as sombras é que predominam.O que quero dizer é que as sombras poderiam ser menores e menos graves”.

Passou por sua cabeça a idéia de largar o Partido Comunista ?

Saramago : “Não tenciono efetivamente –para usar a expressão que você usou – “largar” o Partido Comunista,a não ser que ele me largue .Quero dizer : se amanhã o Partido se transformar em outra coisa,como aconteceu com a maioria dos partidos comunistas europeus,posso não reconhecer o Partido a que aderi.Nesse caso,é possível que eu saia.Mas espero que não aconteça”.

Por que é que o Prêmio Nobel de Literatura não gosta de falar de literatura ?

Saramago : “…Mas eu nunca disse que não gosto de falar de literatura ! O que disse foi que cada vez menos me interessa falar no assunto.Não é que não goste.Se é meu trabalho,como é que eu não iria gostar ? Quando se publica um livro,ou por qualquer outro motivo,ligado ou não ligado a mim,falo de literatura,evidentemente. O que acontece é que considero que os problemas do mundo não se esgotam na literatura. São tão graves e tão importantes que, se tenho a oportunidade, até quando trato de literatura trato de abordá-los. Isso não é dizer que não gosto de falar de literatura”.

* Texto: Diógenes Botelho (PPS)

Um homem singular

Publicado porRoberto Freire | categoria(s): Brasil, Cultura | em: 11-06-2010

Instituído pelos governos do Brasil e de Portugal em 1988, o Prêmio Camões é atribuído aos autores que tenham contribuído para o enriquecimento do patrimônio literário e cultural da língua portuguesa.

Considerado o mais importante prêmio literário destinado a um autor de língua portuguesa pelo conjunto da sua obra, foi este ano entregue ao poeta Ferreira Gullar.

Nascido José Ribamar Ferreira, em 10 de setembro de 1930, em São Luís, Maranhão, Ferreira Gullar inscreve seu nome na arte literária em 1950, quando vence um concurso no Jornal de Letras com o poema O galo.

Mesmo ano em que é demitido de seu trabalho de locutor de uma rádio por se recusar a ler uma nota oficial do governo que acusava os comunistas pela morte de um operário, em um comício.

Desde cedo, arte e política entrelaçaram-se em sua vida de uma maneira inequívoca e apaixonada, como demonstra sua vocação para a polêmica e a experimentação da fase concreta, dos anos 50, e o caráter popular de suas peças e trabalhos no Centro Popular de Cultura da UNE, nos anos 60.

Homem de letras e animal político, Gullar notabilizou-se por seu empenho, na época do CPC e no Jornal do Brasil, na discussão crítica de nossa cultura e por seu envolvimento nos movimentos artísticos mais salientes que se materializavam no Brasil, à época.

Poeta refinado, crítico de arte conceituado e artista plástico tenaz é também um cidadão voltado para as questões políticas de seu tempo. Por isso, entregou-se, sem pestanejar, à causa da democracia, quando esta foi violentada pela ditadura militar, em 1964.

Assumiu a militância política no PCB e correu todos os riscos decorrentes dessa opção.

Preso após a edição do AI-5, exilou-se, em 1971, na URSS, depois em Santiago do Chile, no Peru e em Buenos Aires.

Na Argentina, produziu um dos poemas mais relevantes de nossa língua, o Poema Sujo. Misto de memórias e reflexão poético-política, o poema teve um forte impacto no mundo literário.

Desde seu retorno ao país, em 1977, tornou-se referência na luta pela democracia e um de nossos mais produtivos intelectuais.

Comprometido com a luta de seu povo pela conquista da dignidade e por uma vida solidária, dedicou o melhor de suas energias a tal propósito.

O Prêmio Camões que Gullar recebe pela excelência de sua produção literária e artística enche-me de orgulho pessoalmente e como brasileiro.

Sempre junto com o poeta e intelectual, caminhou o político, que, cabe destacar, tornou-se inigualável testemunho de vida.

Numa época em que nossa intelligentsia recolhe-se numa omissão inexplicável, quando não ao cinismo dos áulicos, ele continua na trincheira de combate ao coro dos contentes, desmistificando o uso do poder em benefício de estruturas partidárias; denunciando o populismo caboclo dos salvadores da pátria; confrontando o silêncio dos acomodados com seus eloqüentes “resmungos”; levando avante a tarefa de todo intelectual digno de ser o porta voz do civismo de seu povo.

O significado da obra do poeta Gullar mescla-se à dignidade do cidadão, tornando-o uma singularidade provocadora para nossa consciência democrática.

Leia o texto também na versão online do Brasil Econômico